Ressaca
Me sinto seca
Exposta ao sol com as vísceras reviradas
Tanto faz ter tudo ou ter nada
Que as luzes se apaguem e o mundo me esqueça
Com seus olhos vazios a desdenhar minhas queixas
Tenho o corpo dolorido e a alma inflamada
Me atormenta a incerteza dos dias que vêm
E a memória de encantos que a vida solapa
3 comentários:
Hoje de manhã eu quis a morte.
Não essa morte rala
Feita de todo dia.
Mas uma que me pegasse assim
De peito aberto, gritando:
Vem, vem que eu agüento.
E eu não agüentasse.
E caísse com a cara no chão.
Hoje, mais cedo, eu quis a morte.
Nada mais dessa vida opaca,
Essa infelicidade fraca.
Vida que não dá nem desce.
Eu e essa maldita ressaca
Que não desaparece.
nilo neto
A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro fornecia um abrigo para muitas ressacas, algumas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Dava descarga na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis, azuis, azuis, curando-me.
bukowski
Bicarbonato de Soda
Fernando Pessoa
( Álvaro de campos )
Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus prpósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens, Sem esperança, em liberdade, sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros! Dêem-me de beber, que não tenho sede!
Postar um comentário